Em 7 de setembro de 1822, seis pessoas testemunharam a proclamação da Independência às margens do riacho do Ipiranga. Uma delas era Francisco Gomes da Silva, o Chalaça. Filho bastardo de um nobre português, ex-barbeiro da rua do Piolho, dono de tavernas no Rio de Janeiro — e a pena por trás de alguns dos textos mais importantes da história brasileira.

Chalaça redigiu discursos de D. Pedro I, artigos defendendo a Independência e trechos da Constituição de 1824. Na Carta Constitucional, ele assinou: “Francisco Gomes da Silva, a fez”. Sua assinatura está na fundação legal do país. Mas poucos sabem quem ele foi.

A história de Chalaça interessa por um motivo simples: ela mostra que escrever bem sempre foi uma habilidade rara e decisiva. D. Pedro I tinha poder e carisma. Chalaça tinha domínio da língua e conhecimento retórico. Juntos, construíram os textos que estruturaram o Império.

Essa combinação — liderança de um lado, habilidade técnica do outro — não mudou. Hoje chamamos isso de ghostwriting.

Chalaça Ghostwriter de D. Pedro I
A vida antes do palácio

Francisco era filho bastardo de Francisco José Rufino de Sousa Lobato, futuro Visconde de Vila Nova da Rainha, e de Maria da Conceição Alves, uma criada de 19 anos. Quando o pai ia se casar, a noiva exigiu que ele se livrasse da empregada e do menino. Maria foi enviada para a África. Francisco, então com oito anos, foi entregue a Antonio Gomes da Silva, um joalheiro que recebeu dinheiro para registrá-lo como filho.

Mas o pai biológico não o abandonou completamente. Colocou-o no seminário de Santarém, onde Francisco aprendeu filosofia, latim, francês, inglês, italiano e espanhol. Aos 16 anos, fugiu do seminário ao saber que o exército de Napoleão avançava sobre Portugal. Chegou a ser preso por tropas francesas e condenado à morte por espionagem, mas escapou e conseguiu embarcar para o Brasil com a corte de D. João VI em 1808.

O apelido e a personalidade

“Chalaça” significa pessoa espirituosa, zombeteira, gracejadora. O apelido veio naturalmente. Francisco tinha uma personalidade animada que lhe rendeu o apelido na corte de D. João VI. Era bem-humorado, irreverente, boêmio. Sabia transitar entre o protocolo e a farra.

No Rio de Janeiro, abriu uma tenda de barbeiro na rua do Piolho (atual rua da Carioca), onde trabalhava como cirurgião, dentista e sangrador. Em 1810 conseguiu entrar no palácio como criado honorário. Um ano depois, foi nomeado Moço de Reposteiro por D. João. Em 1812, já recebia vantagens por “serviços reservados” ao Príncipe Regente.

Chalaça era dono de várias tavernas e hospedarias no Rio de Janeiro. Conhecia gente. Tinha contatos. Sabia coisas. Essas características o aproximaram do jovem D. Pedro.

A amizade com D. Pedro I

Chalaça era sete anos mais velho que D. Pedro e se tornou seu amigo de todas as horas. Acompanhava o príncipe em noitadas e intermediou a aproximação dele com Maria Domitila de Castro Canto e Melo, que receberia o título de Marquesa de Santos.

Em 1817, Chalaça foi expulso do serviço real após ser encontrado em colóquio amoroso com uma dama casada da corte em um bosque da fazenda de Santa Cruz. Com ela, fugiu para lugar ignorado. Mas a amizade com D. Pedro era sólida. Com ajuda do pai biológico Lobato, D. Pedro conseguiu a reabilitação do amigo — que chegou a defendê-lo em uma briga de bar.

D. Pedro era mulherengo, mas não bebia. Chalaça gostava de música, bebidas e mulheres. Mantinha-se constantemente fiel ao príncipe, que respeitava o quanto o amigo era culto e, na medida do possível, discreto.

Testemunha da Independência

Em 7 de setembro de 1822, apenas seis pessoas presenciaram toda a cena da proclamação da Independência às margens do riacho do Ipiranga. Entre elas estava Francisco Gomes da Silva.

A proclamação não foi improvisada. D. Pedro viajava pela província de São Paulo quando recebeu notícias de que as cortes portuguesas haviam tomado medidas limitando sua autoridade no Brasil. Chalaça estava lá, testemunhando o momento em que o Brasil deixou de ser colônia.

O primeiro ghostwriter brasileiro

O gabinete secreto e a pena invisível

Chalaça fazia parte do chamado “gabinete secreto” — um grupo de consultores próximos ao imperador, todos portugueses, que influenciava decisões importantes. Essa proximidade lhe deu acesso privilegiado à mente de D. Pedro I.

Sua educação no seminário havia lhe dado domínio de línguas e boa caligrafia. Essas habilidades, combinadas com sua posição política, o transformaram no que hoje chamaríamos de ghostwriter oficial.

Historiadores apontam que ele escreveu:

  • – Discursos oficiais do imperador
  • – Artigos para jornais defendendo a Independência
  • – Trechos da Constituição de 1824

Esse último ponto merece atenção: a primeira Constituição brasileira tem a marca de um ghostwriter. Na qualidade de oficial maior da Secretaria de Estado, Chalaça inseriu na Carta Constitucional do Império do Brasil de 1824 sua assinatura com a rubrica: “Francisco Gomes da Silva, a fez”. Por ter redigido a Carta, foi condecorado por D. Pedro I com a comenda da “Torre e Espada”.

Por que D. Pedro I precisava de um ghostwriter?

Simples: liderança e habilidade para escrever são competências diferentes. D. Pedro I tinha carisma e poder de decisão. Chalaça tinha domínio da língua, conhecimento retórico e capacidade de formalizar ideias. Essa combinação produziu textos que moveram a opinião pública e estruturaram o Império.

Em 1827, Chalaça já era coronel comandante da Guarda de Honra do imperador. Mas à medida que o Marquês de Barbacena ganhava influência no governo, passou a pressionar para que D. Pedro I dispensasse os amigos nascidos em Portugal. Em 1830, Chalaça foi nomeado embaixador no Reino das Duas Sicílias — uma manobra política dos adversários para afastá-lo da corte.

O que isso tem a ver com ghostwriting hoje?

A função continua a mesma: transformar ideias em textos eficazes. O cliente fornece conteúdo, experiência e autoridade. O ghostwriter fornece estrutura, clareza e tempo.

Não se trata de falsidade. Trata-se de reconhecer que escrever bem é uma habilidade específica. Assim como você contrata um advogado para redigir contratos ou um arquiteto para projetar espaços, você contrata um ghostwriter para garantir que sua mensagem seja transmitida com precisão.

Outros serviços de escrita profissional

Biografia

A história de Chalaça sobreviveu porque foi registrada. Uma biografia bem escrita preserva trajetórias, decisões e legados. É a diferença entre ser lembrado e ser esquecido.

Revisão

Corrige gramática, ortografia e clareza. Garante que o texto não tenha ruídos que prejudiquem a mensagem.

Copidesque

Trabalha fluidez, ritmo e adequação ao público. Transforma um texto correto em um texto que prende a atenção.

O exílio e os últimos anos

Após a abdicação de D. Pedro I em 1831, Chalaça nunca mais voltou ao Brasil. Viveu em uma pensão em Paris junto de seu cavalariço e amigo Calimério da Cruz. Em 1832, tentou dar o golpe do baú em uma viúva rica chamada Marie-Louise, mas tudo que ganhou foi uma gargantilha de ouro.

Foi chamado a Portugal por D. Pedro em 1833 para ser secretário de Estado da Casa de Bragança. D. Pedro morreu em 24 de setembro de 1834. Chalaça o acompanhou até o fim, mantendo a fidelidade que sempre caracterizou sua relação com o imperador.

Francisco Gomes da Silva morreu em Lisboa em 30 de dezembro de 1852, aos 61 anos. Deixou memórias que foram publicadas com o título “Memórias oferecidas à Nação Brasileira” — um curioso documento sobre a vida pública e particular do primeiro imperador do Brasil.

O legado

Chalaça provou que a escrita profissional tem impacto político e histórico. Ele não buscava visibilidade — buscava eficácia. O resultado: seus textos ajudaram a construir um país.

Sobre sua relevância histórica, há divergências. O historiador Paulo Rezzutti afirma: “Francisco Gomes da Silva participou de vários eventos históricos, como acompanhante do imperador ou como seu secretário, mas ele não foi responsável direto por nenhum deles. É impossível dizer que o Chalaça não tem importância histórica, mas é aquela que é destinada aos que exercem muitas vezes o poder por detrás do poder.”

Já o historiador Rafael Cupello Peixoto pensa diferente: “Se observarmos Francisco Gomes da Silva para além da visão mais caricata, isto é, como o amigo alcoviteiro, mulherengo, boêmio e divertido de D. Pedro I, que claro ele era, vamos perceber que Chalaça também foi um personagem político que atuou diretamente nos acontecimentos do Primeiro Reinado.”

O comentário de Otávio Tarquínio de Sousa resume bem: “Não era o ignorante, o sevandija que se quis fazer dele. Não lhe faltava, ao contrário, certa finura, certa manha no desempenho das incumbências que lhe competiam; sabia escrever, redigia até com bastante propriedade de expressão. E foi sempre fiel ao imperador, antes e depois de sua desgraça.”

Chalaça foi retratado em filmes, novelas e até em uma ópera. Em “O Grito do Ipiranga” (1917), “Independência ou Morte” (1972), na novela “Marquesa de Santos” (1984), no filme “Carlota Joaquina – Princesa do Brazil” (1995), na minissérie “O Quinto dos Infernos” (2002) e na novela “Novo Mundo” (2017). O compositor Francisco Mignone criou a ópera “O Chalaça”, estreada em 1971 no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.